Entrevista
Atualizado em: 24/02/2019 - 10:15 am

Camilo Santana: “PT precisa fazer autocrítica, se renovar, se reinventar”. Foto: Valter Campanato, Agência Brasil

Reeleito no Ceará com a maior porcentagem de votos entre os governadores (79,9%) na eleição de 2018, Camilo Santana, 50, se apresenta com um dos novos quadros do PT no momento em que o partido tenta se reestruturar após derrota nas urnas para presidente. Camilo é um daqueles que defendem que a legenda precisa de autocrítica e de renovação.

“Desde lá atrás achei que o partido precisa fazer autocrítica, se renovar, se reinventar, até porque acho que deve fazer parte do ser humano, de qualquer instituição, buscar se aprimorar. Gosto de fazer auto avaliação para melhorar, e dar essa resposta, onde erramos, o que podemos corrigir. Acho que falta mais essa característica para o PT”, disse, à reportagem da Folha de S.Paulo.

Para ele, a renovação passa por dar um passo à frente com relação à espera pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba desde abril de 2018. “Lula sofre uma grande injustiça, deu uma grande contribuição ao país, mas precisam vir novas pessoas, novos quadros”, afirmou.

Durante a campanha presidencial, Camilo se dividiu no primeiro turno entre os palanques de Fernando Haddad, candidato de seu partido, e Ciro Gomes, do PDT, seu aliado no estado e quem o governador cearense achava que deveria ter encabeçado a chapa do que chama de partidos progressistas. Após a definição do segundo turno entre Jair Bolsonaro e Haddad, Camilo estava no evento que escancarou o racha entre Ciro e o PT quando o irmão de Ciro, Cid, eleito senador pelo Ceará, bateu boca com militantes petistas e disse a frase “Lula está preso, babaca”, que viralizou.

“Houve divergências, até porque ele [Ciro] sempre esperou que o PT retribuísse todo o apoio que teve, dando apoio à candidatura dele, o que eu defendi. Como o Lula não poderia ser candidato, eu defendia que o candidato fosse o Ciro, até citei que minha chapa seria Ciro e Haddad, antes da eleição. Acho que temos muito mais convergências do que divergências [PT e PDT] e precisamos de união”, disse.

Ataques
O pós-reeleição não foi fácil para Camilo. Em 2 de janeiro, o Ceará passou a conviver com ataques a prédios públicos e privados, ônibus e até viadutos, atribuídos à facções criminosas descontentes com o anúncio de que o governo tornaria mais rígidas as regras nas prisões. Foi criada uma secretaria específica, de Administração Penitenciária, e nomeado Luis Mauro Albuquerque, que ficou conhecido por, em 2017, comandar a retomada e reestruturação do presídio de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, que durante rebelião teve 26 mortos.

“A gente sabia que ia ter reação [das facções criminosas], só no aceitar [de Mauro Albuquerque] a inteligência identificou movimentação. Mas é difícil imaginar a intensidade. Por isso que no primeiro momento eu solicitei de imediato o apoio da Força Nacional e do Exército, infelizmente o Exército o governo não atendeu. Porque eu sabia que quanto mais pessoal tivesse na rua para sufocar, mais rápido conseguia debelar essas ações”, disse.

Números
Em 27 dias foram ao menos 260 atos criminosos, em 50 das 184 cidades do Ceará. Mais de 466 pessoas foram detidas, suspeitas de participação nos ataques, e 39 presos considerados líderes das facções foram transferidos para prisão federal. No início de fevereiro, mesmo com o fim das ações, Camilo pediu a permanência da Força Nacional de Segurança, que ficará por mais 30 dias. “A presença da Força Nacional, ela tem muito mais o simbolismo. Porque se você for avaliar, eu tenho 29 mil homens nas minhas forças de segurança, vieram 408 homens da Força Nacional. Mas o fato da Força estar no Ceará, tem um impacto psicológico importante na população”, avaliou.

Facções
Em janeiro, em meio aos ataques, o Ceará registrou uma queda abrupta de mortes violentas, mais de 60% comparado com janeiro de 2018. À Folha de S.Paulo, o sociólogo César Barreira, da Universidade Federal do Ceará (UFC), avaliou que as ondas de ataques fizeram com que a disputa por territórios entre as facções –no Ceará são três dominantes, o PCC, o Comando Vermelho e a local Guardiões do Estado– fosse temporariamente suspensa por causa da união delas para combater um inimigo comum. “Eles [especialistas] têm que explicar porque tivemos redução [nas mortes violentas] por 11 meses seguidos em 2018. Quando tomei a decisão do enfrentamento ao sistema prisional, eu sabia que teria um efeito forte aqui fora. Não tenho dúvida que a diminuição dos homicídios é fruto dessa intervenção, foi fruto da presença da polícia nas ruas”, disse Camilo.

Queda
Em fevereiro de 2019, até o dia 12, ocorreram 65 mortes violentas no Ceará, segundo dados da Secretaria de Segurança do Estado. No mesmo período de fevereiro de 2018 foram 168, 61% a mais. “Vamos ter um acompanhamento para confirmar essa queda”, disse Camilo.

Com informações da Folha



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