Opinião
Atualizado em: 27/05/2013 - 11:18 am

O professor da Universidade de Fortaleza, Vasco Furtado, é o criador do WikiCrimes

O professor da Universidade de Fortaleza, Vasco Furtado, é o criador do WikiCrimes

O professor Vasco Furtado, criador do WikiCrimes (mapa colaborativo que permite ao cidadão registrar ocorrência de crimes pela internet), quer incentivar a participação de empresários na colaboração do mapa da criminalidade. Em artigo enviado para o blog, ele destaca que o WikiCrimes pode “auxiliar no planejamento de rotas seguras, bem como na identificação de focos de criminalidade e que estão afetando os negócios”. Acompanhe.

“Empresários, venham participar de WikiCrimes!

O mapa da criminalidade em WikiCrimes (www.wikicrimes.org) está sendo criado com a participação individual, de governos e de parceiros da sociedade civil. Isto não se faz, no entanto, sem muita dificuldade. Um dos nossos grandes desafios é quebrar uma cultura de baixa colaboração que é enraizada na nossa sociedade. Muitas são as vezes que, ao buscar parceiros para o projeto, me defronto com situações que ilustram bem isso. Por exemplo, alguns comerciantes têm receio de registrar crimes que ocorrem perto de seu estabelecimento, pois crêem que isso afugentaria seus clientes. Não percebem (ou fingem não perceber) que essa postura acaba por deixar seus clientes mais vulneráveis.

A transparência de dados sobre segurança ainda é tabu. Penso sempre na máxima: mordomia só é ruim nos outros. Minha experiência com WikiCrimes me fez reciclá-la para “transparência só é bom nos outros”.

É fácil apontar que certos lugares são perigosos, desde que não seja lugares que possam me afetar. A cultura avestruz de enfiar a cabeça na terra e não ver o que está à mostra igualmente expressa no dito “colocar a sujeira para baixo do tapete” está mais presente em nossa sociedade do que pensava.

O setor de logística pode ser um exemplo de como a formação de comunidades de compartilhamento de informação através de WikiCrimes pode ser benéfica a todos. A distribuição e entregas de produtos fazem com que as empresas de logística tenham informações precisas dos locais mais perigosos. Elas são vítimas freqüentes de roubos (diretamente ou através de empresas de transporte terceirizadas) e se registrarem as ocorrências em WikiCrimes todos podem sair lucrando. Os crimes de roubo de carga, por exemplo, são os que têm menos ocorrência em WikiCrimes. Esse baixo índice de participação decorre do fato de que se trata do tipo de ocorrência que afeta diretamente às empresas e são elas que devem se motivar a colaborar.

Infelizmente, existe ainda prevalece uma cultura de competição que é ruim a todos. Cada um guarda a informação para si achando que isso é vantagem competitiva. E pior, chegam, muitas vezes, a buscar formas de ter a informação oficial o que por vezes gera um relacionamento promíscuo com o poder público. Aqueles que têm seus contatos nas polícias levam vantagens. Isso tudo com a informação pública e que é de todos. Não é apostando em deficiências do sistema de segurança que a competição entre empresas deve se situar. É o tipo de jogo em que todos perdem.

WikiCrimes se dispõe a ser esse canal de comunicação e compartilhamento de informações entre as empresas. Para que isso ocorra, elas podem se cadastrar como Entidade Certificadora. Esse cadastro é muito simples, sem maiores formalidades. Basta enviar um email para wikicrimes@wikicrimes.org declarando o interesse de ser entidade certificadora, descrevendo a fonte principal de onde os crimes a serem registrados virão e relacionando o(s) email(s) de todos aqueles que vão registrar os crimes em nome da empresa.

Ao fazer isso a empresa cadastrada poderá inclusive selecionar, no mapa de crimes, só aquelas ocorrências registradas por ela ou aquelas feitas por outras empresas que considere com alta credibilidade. O mapa da criminalidade de WikiCrimes pode ainda auxiliar no planejamento de rotas seguras, bem como na identificação de focos de criminalidade e que estão afetando os negócios.

A colaboração com e através WikiCrimes é igualmente uma oportunidade para que os empresários mostrem uma postura mais proativa frente aos problemas da Segurança Pública. Precisam também mostrar a seus clientes que estão preocupados com a situação. Devem mostrar que ao explicitar os problemas existentes, o fazem como forma de pressionar as autoridades para que soluções sejam encontradas. Ao compartilharem informações com os clientes, o fazem com o intuito de lhes deixarem mais seguros e lhes fazerem mais precavidos”.

* Vasco Furtado é professor em computação da Universidade de Fortaleza, com doutorado em Inteligência Artificial na Université d’Aix Marseille III, França, e pós-doutorado na Universidade de Stanford, EUA.



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