Entrevista
Atualizado em: 27/03/2017 - 2:21 pm

“Não tenho vontade de ser candidato se o Lula for”, diz Ciro em entrevista à Folha. Foto: Kézya Diniz

Ex-ministro de Lula, o cearense Ciro Gomes (PDT-CE) torce para que o petista não concorra à Presidência em 2018. Em entrevista à Folha, Ciro considerou que a candidatura de Lula “seria um desserviço” ao País e inviabilizaria sua postulação. “Não tenho a menor vontade de ser candidato se o Lula for”, diz.

Ciro já tentou chegar ao Planalto em 1998 (11% dos votos) e 2002 (12%).  Folha destaca que, segundo o anedotário político que, na última tentativa, morreu pela boca, ao chamar um eleitor de “burro” e dizer que Patricia Pillar, então sua esposa, tinha o crucial papel de “dormir comigo”.

A língua continua afiada. Em uma hora de conversa para a reportagem, Ciro critica o “farsante” João Doria, o “exibicionista” Sergio Moro e o “golpista” Michel Temer. Acompanhe alguns trechos da entrevista.

Folha – Em outubro, o sr. disse que Lula brincou de Deus e se queimou. Ele seria seu maior rival?
Ciro Gomes – Temos longa história de parcerias e diferenças. Votei nele em 1989 [no segundo turno], 2002 e 2006. Na Dilma em 2010 e 2014. Entretanto, acho que nesse momento a candidatura do Lula desserve a ele e ao país. Na melhor das hipóteses, ganha e projeta essa confrontação odienta que está rachando o país. Mas a probabilidade de polarizar e perder é muito alta.

F – É hora do PT apoiá-lo?
CG – A natureza do PT, e é legítimo isso, é ter candidato próprio. Talvez o ideal fosse apresentar uma nova liderança.

F – Em 2008, a Folha o questionou se aceitaria ser vice de Lula. O sr. respondeu: “Admito ser qualquer coisa. Não fui ministro com a maior honra?”
CG – Serei bastante categórico: não serei vice de ninguém.

F – Em vídeo, o sr. aparece dizendo que ele é “um merda” que não é “inocente de nada”.
CG – As pessoas editam. Falaram: “Você é um aliado do Lula, o Lula é um merda”. Eu disse: “O Lula é um merda, mas tem direito a presunção de inocência”. É totalmente o oposto do que pareceu [no vídeo, um manifestante questiona: “Onde é que na história está escrito que o Lula é inocente, doutor?” Ciro: “Inocente nada, o Lula é um merda”].

F – Marina Silva é a única, em Datafolha de dezembro, que venceria Lula no segundo turno.
CG – Veja, Marina é uma boa pessoa. Mas não tem visão administrativa. Hostiliza, no simbólico, o agronegócio, a mineração. Evidentemente nada autoriza nenhum deles a nenhum tipo de abuso. Mas o descuido da Marina com a vida real faz com que ela apresente, como sua única proposta que conheço concreta, uma aberração, que é a independência do Banco Central.

F – Bolsonaro tem 9% das intenções de voto, quase o dobro do que o sr. registra [5%].
CG – Há um pensamento que se representa no que Bolsonaro diz, e que tem direito de se expressar. E taticamente ele presta ao país um serviço, pois esse eleitorado do antipetismo se concentrava todo no PSDB.

F – O que representa o avanço de um candidato tão extremista?
CG – Esse pensamento sempre existiu. O que fez foi sair do armário, pela debacle do PT. Nós do mundo progressista deixamos parte da população imaginar que nosso apreço aos direitos humanos parece contemporizar com a impunidade. Há pessoas que imaginam soluções toscas, que veem muita verdade em “bandido bom é bandido morto”.

F – Temer, a quem você chama de golpista salafrário, disse que será o presidente mais nordestino que o país já teve.
CG – Bote aí que dei uma risada. Ele, para além de ser essa coisa constrangedora de chefe de quadrilha, sendo um velho e notório malversador de dinheiros públicos, virou chefe de um governo de patetas.

F – O sr. disse que o “dr. da Lava Jato [Sergio Moro] errou”.
CG – O exibicionismo midiático, ir ao Facebook agradecer o apoio de todos, as gravatinhas borboletas em todo tipo de solenidade, a confraternização descuidada com possíveis réus, a fraude com a gravação da presidente [divulgação do grampo de ligação entre Dilma e Lula] –o que nos EUA é considerado traição e gera até pena de morte, só para ter a relativização dessa leviandade. Isso tudo semeia a semente de matar essa coisa importante que seria a Lava Jato, que ainda pode ser o momento de virada na impunidade. Mandar prender um blogueiro, tem uma coisa patológica nisso. Não falo com prazer, falo com dor. Operação Satiagraha? Anulada inteira. Daniel Dantas, culpado de tudo? Tá com atestado de inocente.

F – Em entrevista, o sr. criticou a condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães, desafiou Moro a prendê-lo e disse que receberia “a turma dele na bala”. O que quis dizer?
CG – Desta vez foi um blogueiro, mas amanhã pode ser um repórter da Folha. Não está certo. No momento que o país passa por um golpe de Estado, não podemos nos acovardar diante do autoritarismo.

Veja qui:
“Ele (Moro) que mande me prender. Eu recebo a turma dele à bala”, diz Ciro

F – Doria afirmou que o sr. é emocionalmente instável. Não é o primeiro. Você tem um problema de temperamento?
CG – Não me parece. Quem deve dizer isso é o meu psiquiatra.

F – O sr. tem um psiquiatra?
CG – Não [risos]. Mas repare uma coisa: tenho 37 anos de vida pública. Não tenho rádio, TV, empresa, nunca aceitei receber as pensões imorais que a Legislação me deu direito. Isso tudo me faz um cara meio estranho mesmo. E o que dizem de mim é que eu sou o cara que fala muito, que fala as coisas por destempero. Não é. Arroubos, se algum ser humano não tiver, me ensine.

F – Muitos políticos fazem “media training” para contê-los.
CG – Já fiz com os melhores do mundo.

F – Carrega alguma lição?
CG – [Uma especialista] sempre me estimulou a manter minha linguagem, meu sotaque, meu jeito de ser. Só tenho como ferramenta minha língua. Fui governador, prefeito, comandei a economia como ministro da Fazenda, fui ministro da Integração Nacional. Eu que fiz este projeto do rio São Francisco que tá cheio de pai, e vai ver se não entreguei serenamente essas tarefas?

F – Donald Trump, outro acusado de destempero, virou presidente dos EUA. O estilo “direto ao ponto” virou um ativo?
CG – Em tempos bicudos, as pessoas procuram franqueza. Estão percebendo que um dos elementos fracos da política é o moralismo de goela pra depois roubar. Nunca tive tanta audiência nessa vida.

F – O sr. é acusado de truculência no trato com manifestantes, como rasgar cartazes.
CG – Vou ali conversar sem segurança, a pessoa esfrega papel no seu rosto, o que você faz? Me liga a cunhada à 1h30 dizendo que ameaçam de morte meu irmão. Vou deixar bater nele? Sou pessoa física, não tenho cargo de majestade.

F – Qual sua estratégia para 2018?
CG – Tenho que manter minha intransigência sem parecer um cara incapaz de dialogar e tenho que olhar para o futuro, se Lula é candidato ou não.

F – Recuaria com Lula no páreo?
CG – Não tenho a menor vontade de ser candidato se o Lula for. Menos em homenagem a ele e mais porque a tendência é ele polarizar o processo. E eu ficar falando de modelo econômico… Vou ter um papel nobre, vou lá para meus 12%, 15% no mínimo, mas daí dizer para o povo que acredito que vou ser presidente… Não consigo mentir desse jeito.

Com informações da Folha
Para ler a entrevista completa, clique aqui



0 comentários







0 comentários
Topo | Home