Opinião
Atualizado em: 30/07/2013 - 4:30 pm

Maia Júnior é engenheiro-civil e ocupou o cargo de secretário do Planejamento e Gestão do Estado do Ceará

Maia Júnior é engenheiro-civil e ocupou o cargo de secretário do Planejamento e Gestão do Estado do Ceará

As recentes manifestações de protesto do mês de junho foram o estopim para uma crise política que resultou na queda da popularidade de governos e políticos em geral, como atestam diversas pesquisas. As passeatas e seus efeitos nas pesquisas abalaram as relações na base aliada em Brasília e agora ameaçam interferir no processo eleitoral do ano que vem em todo o país.

O tema, portanto, está mais vivo do que nunca. Sobre isso, o engenheiro e empresário Maia Júnior, ex-vice-governador e ex-secretário de Planejamento no Ceará, fala em artigo para o blog. Será que o pior já passou? Trata-se de uma crise moral ou de descontentamento com as más notícias da área econômica? Confira o artigo.

Por Francisco de Queiroz Maia Júnior*

“Passamos a última década sendo impelidos acreditar que o Brasil havia se tornado um paraíso, que dezenas de milhões de pessoas haviam ascendido à classe média; ou que a saúde pública nacional estava a um passo da perfeição – como afirmou o então presidente Lula em meados de 2006. Apesar da propaganda oficial, eis que irrompe em junho deste ano uma sensação avassaladora de que algo estava errado. Mesmo sem ninguém precisar qual era a causa do mal-estar, consolidou-se um sentimento generalizado e contundente de insatisfação na sociedade. E ao poder político em várias esferas restou a perplexidade – como se estivessem diante de uma criança que grita de dor, mas que é incapaz de dizer com a exatidão aquilo que a exaspera. Uma única certeza: algo estava causando imensa angústia (e não eram apenas os vinte centavos).

Arrisco alguns palpites para essa insatisfação. Primeiro, ao contrário de muitos querem fazer supor, creio que a irrupção de descontentamento não foi assim tão inesperada – a novidade talvez seja a forma espontânea e difusa como ela ocorreu, com o suporte das redes sociais na internet. Também não estou convencido de que a questão se resuma apenas à conjuntura econômica. Contrariando uma frase celebre do ex-presidente norte-americano Bill Clinton (It´s the economy, stupid!), não acredito que seja somente o viés econômico que explica essa insatisfação. Creio que a coisa é mais profunda. Que tem relação com a perda gradativa de referências morais e éticas ocorridas nos últimos anos; com o fato das principais autoridades dói país tratarem reiteradamente com tanto desleixo questões e valores que deveriam permear as relações sociais.

Nos últimos anos, acentuou-se de forma preocupante a tendência de sepultar valores morais essenciais à vida social em nome de uma estratégia de ampliação e perpetuação de poder. Consolidou-se a noção de avanços socioeconômicos só seriam possíveis com o domínio absoluto do poder político e da máquina pública. Na prática, o PT construiu a variante de uma tese que surgiu no governo militar e que as esquerdas tanto combateram: a de que era necessário, primeiro, fazer o bolo da economia crescer para só depois começar a reparti-lo – formulação atribuída ao então poderoso ministro da Fazenda, Delfim Neto. Pois bem, o PT adotou a mesma tese. Só que em vez do centralismo da economia, optou pelo controle político. A mensagem, ao final, era: primeiro precisamos obter o comando pleno ou influência efetiva nas mais variadas instituições nacionais para só então promover os avanços que o país tanto clama.

Na verdade, não se trata propriamente de uma tese, mas de um argumento ou uma desculpa para não entregar o prometido – e, então, exigir mais tempo e poder para fazê-lo. E, parafraseando B. Franklim, “pessoas que são boas em arranjar desculpas raramente são boas em qualquer outra coisa”. Assim, nesse meio tempo prevaleceram políticas apenas eficientes para ganhar eleições, mas incapazes para assegurar condições para um desenvolvimento pleno do país. Deixamos de aproveitar um período em que várias nações assemelhadas ao Brasil avançaram, enquanto nos perdemos no lodaçal d discussões, teses e práticas superadas.

Quase nada avançamos na última década em termos de desenvolvimento econômico, competitividade do nosso parque de produção, fomento à pesquisa e inovação…E estacionamos (ou involuímos) no que tangem a serviços essenciais como saúde, transporte educação e segurança pública. Usamos mal um cenário externo favorável e desperdiçamos uma oferta mundial abundante de capitais que esteve disponível durante anos. Também não promovemos as reformas necessárias ao país – política, tributária.trabalhista…..Fomos orientados apenas a mergulhar na farra do consumo, como se o mercado doméstico fosse suficiente para bancar nosso futuro.

Agora é como se as pessoas estivessem acordando de um êxtase patrocinado pelos governantes – e potencializado pela marquetagem política. Ainda não se sabe o que precisamente deu errado. Estamos diante de um movimento complexo e difuso (e até confuso em vários momentos), mas certamente decorrente de uma angústia real.”

*Maia Júnior é engenheiro-civil e ocupou o cargo de secretário do Planejamento e Gestão do Estado do Ceará



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