Opinião
Atualizado em: 30/09/2011 - 9:02 am

Professores cercados pela tropa policial na Assembleia Legislativa

Em 1964, eu já era repórter cobrindo os movimentos populares de rua que se insurgiam contra o Regime Militar implantado em março. Lembro-me, como se fosse hoje, de lideranças sindicais, operárias, intelectuais, profissionais liberais, sofrendo a repressão do sistema e apanhando da polícia nas ruas. Essas cenas, quase apagadas pelo tempo, afloraram agora nas minhas retinas ao acompanhar pela TV Jangadeiro os episódios de truculência contra os professores na Assembleia Legislativa.

As mesmas lembranças fastidiosas já haviam acessado os velhos cenários com o confronto anterior na Câmara de Vereadores. A diferença é que nenhum dos cenários passados da repressão, pelo menos aqui em Fortaleza, teve por palco as instituições legislativas. Pelo contrário, os parlamentos em todos os seus níveis e instâncias associavam-se aos movimentos populares e serviram até de abrigo para muitos dos participantes, até que foram também ocupados pelas forças policiais e militares. Muitos dos seus membros foram também presos e torturados como os dos movimentos de rua.

Essas recordações trouxeram-me ainda conjecturas dolorosas e indesejáveis para quem foi repórter em duas épocas distintas: na ditadura e na reabertura democrática. E nas minhas lucubrações, em face dos episódios de ontem, 29, na Assembleia do Estado, surgiram duas realidades conflitantes: o parlamento como bastião de resistência dos movimentos contra os excessos do regime e os professores reprimidos e surrados como eram os personagens dos cenários de protestos naquela época. Agora, os parlamentares daquele tempo, que sofriam junto com os combatentes de rua, não eram como os que hoje os desprezam ou combatem. E se declaram dos chamados partidos de esquerda eleitos também pelo pessoal da esquerda que hoje apanha deles.

Os que tomam hoje conta do poder, praticamente em todas as hierarquias, nasceram com o voto dos professores, dos estudantes, dos sindicatos, das associações comunitárias, dos intelectuais engajados. Nenhum deles, porém, teve o meu voto, apesar de ser um jornalista procedente da classe proletária, simpatizante e defensor das vítimas do preconceito, da injustiça e da opressão. Estou com a consciência tranqüila por não ter nenhuma responsabilidade pela eleição desses governantes e parlamentares que, ironicamente, em nome dos interesses do povo massacra o povo, suas lideranças e se envolvem nos mais repudiantes escândalos de corrupção e manipulação da opinião pública. Fica então mais uma lição para aqueles que votam sob a premissa do “me engana que eu gosto”.

Wanderley Pereira é jornalista da TV Jangadeiro



1 comentário







1 comentário
Topo | Home


Augusto Ridson | sexta-feira setembro 30 2011 | 15:35

Gostaria de fazer uma ressalva ao companheiro Wanderley, jornalista que escreveu esta matéria. Por favor, repense sua premissa de que foram os professores que colocaram estes sujeitos na Assembleia. Eu sou simpatizante do socialismo libertário e defensor do anarquismo como estratégia de organização e de emancipação da sociedade hj mergulhada nos valores burgueses. Mesmo sentindo as contradições disto sendo professor em greve da rede estadual. Minha função é, sendo professor de História, incentivar os meus alunos a compreenderem história como ponto de partida para a formação de um pensamento analítico. E por causa disso, mesmo tendo vontade, eu não faço educação doutrinária. Não sou nem serei de nenhum partido político. Meu único partido é a educação.

Por conta destas credenciais, em todas as vezes que votei, jamais votei em nenhum daqueles deputados ou dos gestores que estão atualmente no poder do estado, embora admire o deputado Heitor Ferrer, que mesmo pelas pressões de seu partido e sendo da base aliada do homiCIDa da educação, tem se mostrado extremamente competente em seu trabalho de deputado.

Eu e muitos outros professores estamos aqui na luta pela educação e infelizmente não concordamos com sua frase. Não colocamos ele aqui, embora sabemos que aqui-acolá, alguns de nós tenhamos sido traídos nas urnas por ex-professores hj deputados…

Ps: tive hj o prazer de encontrar a competente repórter Kézya durante nossa assembleia da categoria na assembléia legislativa e a cumprimentei pelo ótimo trabalho que ela tem feito, sendo justa e divulgando os feitos de nossa já vitoriosa greve.

Espero ter este comentário publicado, na esperança de que o senhor e Kézya leiam e reflitam!