Com a palavra

Hoje é a dengue que administra Fortaleza

* Por Wanderley Pereira

Fui repórter em Fortaleza colhendo as matérias a pé nas ruas e repartições. O centro era o coração da cidade, de onde se irradiava a administração. Depois, os bairros foram ganhando sua independência e tendo vida própria, poupando os moradores da obrigação de irem ao centro para fazer o mercado, comprar roupa, assistir ao cinema, comparecer ao fórum e resolver praticamente todos os problemas. Até as principais escolas públicas e particulares ficavam no perímetro central. Uma das mais afastadas, o Liceu do Ceará, estava onde permanece até hoje, na praça do Jacarecanga, do lado do Quartel do Corpo de Bombeiros. O Colégio Municipal, que concorria com o Liceu, ficava na Praça do Carmo e, do outro lado da praça, o Farias Brito.

As grandes avenidas eram a João Pessoa, 13 de Maio, Bezerra de Menezes, Duque de Caxias, Dom Manuel, Santos Dumont e Abolição. Depois a Beira-Mar, a José Bastos, a Aguanambi, a Leste-Oeste, a Dedé Brasil e outras impostas pela expansão urbana. Na primeira, o movimento do trânsito na época era o mais intenso, provocando a maioria dos acidentes. Por isso, foi apelidada pela crônica policial de “Avenida da Morte”. Mas se orgulhava de ostentar uma das maiores atrações da arquitetura, pela sua estrutura exótica para o tempo – a “Casa do Português”, que ainda está lá esquecida. Os bairros não eram as cidades satélites que são hoje com a vitalidade dos tempos novos e enormes desafios administrativos.

Mas foi um tempo marcado por grandes obras do poder público e por um padrão de competência e moralidade diferente. Nesse período de novas edificações urbanas, da abertura de grandes vias de acessos para atender à dinâmica dos transportes coletivos e melhorar os serviços públicos, todo aniversário da capital servia de motivo para a administração municipal lançar um pacote de inaugurações. Era tempo de balanço e oportunidade de mostrar a eficiência da gestão e dos compromissos com a coletividade. No Estado era assim também. A festa de aniversário se resumia a entrega de novas obras e serviços à população. Agora, já no segundo mandato de governo, é que Cid Gomes inaugura o Hospital Regional do Cariri, que ainda vai treinar o pessoal para funcionar. E Luizianne, nada.

Ainda hoje, continuo no batente do jornalismo. Fortaleza é outra cidade em feição urbana. De Murilo Borges a Juraci Magalhães, foram rasgadas grandes avenidas e construídos viadutos. E os governos Tasso estenderam a cidade na direção do Cambeba, abrindo a Washington Soares e a Sebastião de Abreu. O Juraci construiu ainda a Via Expressa, reformou o Frotão e os Mercados São Sebastião e Central. Abriu e alargou outras vias interligando bairros com seus terminais rodoviários. Não arrecadava como agora nem contava com o apoio dos governos do PT, mas não faltou dinheiro para inaugurar obras e melhorar a vida da população. Depois disso, a cidade parou estrangulada

pelo trânsito e ineficiência dos serviços públicos. É hoje administrada pela dengue, embora não faltem festa nem a prefeita anunciando o que não fez como feito. São as duas Fortalezas que conheço.

*Wanderley Pereira é jornalista da TV Jangadeiro


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