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Militar pode ser expulso por homofobia de general

Laci (à direita) já foi expulso. Fernando responde a processo. Agora, um terceiro militar está ameaçado de expulsão pela mesma história dos sargentos gays. A reportagem é do Congresso em Foco

No dia 28 de dezembro de 2006, o subtenente Davi Reis grava uma conversa pessoal com o general Adhemar da Costa Machado Filho, então comandante militar do Planalto. Na conversa, o general revela saudades dos tempos da ditadura militar, ou do “velho Exército”, como chama, em que se podia arrombar uma porta, dar “uma porrada” e pegar o desafeto “à força”. Por conta dos novos tempos, em que tais expedientes não são mais possíveis, o general Adhemar não pode então punir os sargentos Laci Marinho e Fernando Alcântara, “dois canalhas”. Mas, mais do que isso, na concepção do general, “um viado” e um “viado que come viado”. A reportagem é do site Congresso em Foco que mostra ainda que a gravação feita por Davi Reis é a principal prova que Laci e Fernando têm da perseguição homofóbica que sofreram no Exército.

Por conta dela, Laci foi expulso por deserção. Ainda sargento, Fernando defende-se também de um processo. E, agora, a história faz uma terceira vítima: por ter gravado a conversa com o general, Davi Reis começou a responder também a um processo, que pode resultar na sua expulsão do Exército, após 26 anos de serviço.

Gravação
O Congresso em Foco ainda disponibilizou, em áudio, o trecho da conversa do general Adhemar com o subtenente Davi Reis. Clique aqui para ouvir.

Motivos
Os casos de Davi Reis e do casal de sargentos gays Fernando e Laci se esbarram por conta de uma denúncia feita por Fernando, e que é o início dos seus problemas. Fernando e Davi trabalhavam no Fundo Social do Exército (FUSEx), e Fernando percebeu irregularidades na compra de medicamentos. Ele faz uma denúncia anônima, intitulando-se “cidadão indignado”.

As denúncias lançam suspeita contra Davi, pelo fato de ele ter um padrão de vida que não seria compatível com seus vencimentos de subtenente. Davi acaba saindo do FUSEx para o BPE, e é nesse processo que ele grava a conversa com o general. Com o registro das declarações do general Adhemar, ela acaba passando as gravações para Fernando e Laci, e ela foi anexada ao processo que o casal gay move contra o Exército.

Proteção
No entanto, ao decidir gravar a conversa, realizada no gabinete do general, a única intenção de Reis foi se proteger, segundo contou em entrevista ao Congresso em Foco. Ele queria provar que estava sendo transferido de forma ilegal, mas acabou gravando as declarações polêmicas do general, e até, insinuações de violência que poderiam ser cometidas contra os dois sargentos.

“Eu fui até o general e ele me atendeu. Só que nessa minha ida, eu já fui preparado porque já estava sabendo que poderiam me usar de bode expiatório, ou para dar satisfação para o Ministério Público. Então eu já fui assim, para me proteger. Pensei: se ele falar que está me transferindo porque existe indício, vou processá-lo. Ou, se me acusar de alguma coisa, vou processá-lo. E segundo, você vai conversar com uma pessoa já com o ânimo exaltado, se achando injustiçado. Imagina, estou eu e o general no gabinete dele. Se ele falar: me desacatou, eu vou falar o quê? Por isso eu fiz a gravação, escondido, obviamente”, revela Reis.

Com informações do Congresso em Foco