Com a palavra
Atualizado em: 31/05/2011 - 1:39 pm

*Por Wanderley Pereira

Não se tem outro noticiário. Ou é homicídio ou roubo público. No fim das contas dá no mesmo porque tudo é crime. Se não é o assalto ao pobre do trabalhador, ao que trabalha honestamente, é o assalto aos cofres públicos, à merenda escolar, aos recursos arrancados do suor do pobre, das pessoas honestas, para engordar salários e mordomias de políticos, governantes e funcionários corruptos. Mas a culpa é de quem os coloca no poder pelo voto direto.

Nos últimos dias, não são outras as manchetes. Deputados do Paraná, acusados de embolsar R$ 60 milhões, em dez anos. Vereadores de Belo Horizonte denunciados por desvios de R$ 43 milhões. PF faz buscas nas casas dos conselheiros do Tribunal de Contas do Amapá. Os ratos aí são que fiscalizam os roubos dos gestores públicos. No centro do pântano moral, mantém-se nas manchetes o ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Antônio Palocci, acusado de aumentar seu patrimônio 20 vezes em quatro anos. Com exemplos assim na cara, o Entorno de Brasília, a 40 quilômetros do Palácio do Planalto, só perde hoje para Honduras em violência.

A roubalheira oficial é que empurra a sociedade para a violência. Neste fim de semana, reli o poeta paranaense Emílio de Menezes, que viveu entre 1866 e 1918. “Voto direto”, entre outros sonetos como “Carta tributária”, “Um velho corrupto”, “Presidente irrelevante” e “Vigarices”, retrata toda essa realidade que vivenciamos em matéria de desonestidade e violência: “Enquanto o voto, que é função de crítica, / Alta função do senso e da moral, / Da inteligência lúcida e analítica, / For exercida por qualquer boçal, / Hão de rir os patifes da política / Que ensangüentam esta capital, / Explorando a ilusão fasa e jejuítica, / Do estafado sufrágio universal”.

Mas antes dele, Gregório de Matos, que viveu na Bahia entre 1636 a 1695, já denunciava na sua poética: “Neste mundo, é mais rico o que mais rapa / Quem mais limpo se faz tem mais carepa; / Com sua língua, ao nobre o vil decepa, / O velhaco maior sempre tem capa”, ou seja, é sempre protegido. E o pernambucano Bastos Tigre, que viveu entre 1882 e 1957, falava assim aos homens do seu tempo: “Mas ai das tuas invenções supernas! / Vivemos como os homens das cavernas,/ De morte e roubo, corrupções e engodos”.

Mas se um Menezes do Paraná defendeu na sua sátira a função crítica do voto, um outro Menezes do Ceará, que morreu 18 anos antes do outro, em grande pobreza, apesar de ter sido médico notável no Rio de Janeiro e deputado federal em duas legislaturas. Pensava assim sobre a política: “A política, como eu a compreendo, não é uma especulação dos homens, é uma religião, a religião da Pátria, tão sagrada e obrigatória como o culto das verdades eternas que constitui a religião de Deus”. Infelizmente, esses políticos estão em extinção, eliminados pelo voto corrompido.

* Wanderley Pereira é jornalista e escritor.

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